Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.
Paul Éluard

Escuta: vamos fugir. Ouves-me, amor? Sentes quando coloco a minha mão sobre o meu peito a fazer-te festas? Acalmo-te as penas, o coração de passarinho? Sentes a minha pena a sossegar?
Corro, quando o vento me segreda “pássaro branco”. Sacudo o vestido de noiva, volteio no espaço, no campo de verdes infinitos e azuis canário.
Deixei de te ouvir cantar, mas ainda guardo as notas da nossa canção em tons de sol e mi em mim. Quentes. Escorreguem-me pelo cabelo e apanho-as à frente de cada passo que dou. Coleciono-as no regaço, na renda do vestido e faço sinos.  
Pertinho de ti, no interior da minha cabeça está a acontecer a festa do nosso casamento. Ouves a minha alegria? Bate as asas, voa-me no sangue e faz ninho no meu riso virginal, onde ainda tudo pode acontecer. Eu páro o tempo para sermos.
Não me vejas como a tua gaiola. Protejo-te do mundo e das mulheres loucas que nascem aqui e além. Sei que te querem tirar de mim. Ouço-as conspirar em segredo enquanto me dão as mãos. Atam-me aos sorrisos que têm só para mim. São mulheres insanas que fingem não acreditar que te transformaste em pássaro branco debaixo de uma luz muito intensa. São doidas que me dão nós com os braços. Em abraços. Por vezes tenho medo que te sufoquem com a força e fujo delas também por isso.
Sentes o carinho de todas? Tocar-te-ão onde, quando me raspam ao de leve no coração com olhares lascivos disfarçados de meiguice? Sabem que vives aí aconchegado e que te alimentas na minha pele. Que sais para sorver devagarinho o sal das minhas lágrimas antes de serem gotas. Antes de serem lágrimas. Antes sequer de eu chorar.
Mas não falemos nisso. Vou contar-te do nosso ultimo voo juntos. Saltaremos do penhasco: imagina o sino do meu vestido a soltar notas de um noivado que nunca terá fim. Imagina o meu grito de alegria e acompanha-me na melodia. Quem sabe poderás sair-me pela boca só para me ver sorrir na vertigem? E, olhos nos olhos, olhos perdidos nos outros olhos seremos o mesmo espaço diáfano. Lembras-te de como era quando fazíamos amor?
Será assim. Chegaremos juntos ao lugar de onde se escapam os sentidos. Eternamente brancos. Eternamente apaziguados.

Salta!
maria n [aqui]

10 comentários:

je suis...noir disse...

Gosto das fotos ;)

Beijinhos!

S disse...

Gosto do texto!
;)

UIFPW08 disse...

as palavras são muito bonitas imagem muito boa Sonia
abraco
Morris

Le Baladeur disse...

Exit Music (for a film) - Radiohead

S disse...

Le Baladeur,
Radiohead, uma das minhas bandas de eleição.
:)

je suis...noir disse...

(se a musica for tb acompanhamento para o meu texto, obrigada Miguel :) )

Anónimo disse...

A alegria que sinto ao retomar as tuas imagens!

S disse...

Obrigada anónimo.

alberto cabero fotografia disse...

Eres muuuy grande!!!!

S disse...

alberto, és um querido!
:)