o fresco da noite exala um cheiro doce a palha cortada. avanço no restolho, finalmente liberta de mais um dia sem fim, cheio de mundo que recebo à superficie. um cão ladra ao longe, os pensamentos evolam-se, numa leveza de odor a ervas cortadas. no silêncio, onde apenas os meus passos estalam as novas camadas de chão, caminho sem rumo, seguindo um rasto invisível que não temo. a escuridão adensa-se. continuo. há quem tenha medo das cobras, como o homem da meia-noite, que bate a vara durante todo o caminho, eu prefiro afastar-me das multidões.
En la otra madrugada.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.
Eugénio de Andrade

Mas nada é interminável e o momento logo acabou, pois é essa a natureza da felicidade, acabar demasiado cedo; durar apenas o tempo necessário para que, depois, possa sempre permanecer a dúvida se não teria sido apenas uma ilusão, um delírio, um equívoco.

Serviços mínimos de felicidade, Paulo Kellerman
“Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;”
Manuel António Pina

Fazem-nos duvidar do que fomos até ali. A própria infância parecia já não nos ter visto crescer. Coisas que inventamos e nos conhecem pelo cheiro, nos seguem esfomeando-se. Por isso ninguém volta a casa, e nem o tamanho da volta se sabe. A mim a história do meu país arrastado pelo vento trouxe-me uma luz cansada de andar, uma toda descosida que com as duas mãos veio apalpar-me o primeiro rosto, doce e antigo.

Diogo Vaz Pinto
“vem de um corpo feito chama
feito lâmina a abrir espaço na tarde
vem de um corpo canção que enche a boca
vem de encontro à semente, na colisão
genesíaca das coisas primeiras, ainda sem nome,
e eu sou um criador nesse quarto de palavras.
vem das coisas líquidas se é corpo que se bebe
que se traga e preenche e inunda e alaga.
o corpo elevado a algo de fé, porque sempre cego
avança, que paralisa com meneios de serpente
e adocica como fruta mordida.”
entre o meu silêncio e o teu 
cresceu um verso com a tua boca 
perto dos meus sentidos
Rui Pires Cabral

Procuro-te pelas ruas e becos desta gasta e velha cidade.
Sem tréguas, a noite cai. Lentamente.

Sónia Silva
E de repente, o Amor é esta ferida aberta.
Suja.
[Fatima Abreu Ferreira]
à flor da pele as horas depositam, 
pausadamente, uma espessura de eternidade
Joan Margarit