A música, gasta e abafada, foge de uma caixa perdida a um canto da sala enchendo-a de nostalgia… Em cima da mesa o conjunto de pintura, escasso de preto e branco e intacto nos vivos, absorve a pouca cor da sala. Tempos houve em que aquele estojo dava a mão a sorrisos e gargalhadas… mas não agora! Ao lado, qual incenso a arder, a sala envolve-se no cheiro bafiento do livro de pintura aberto numa página aleatória, num qualquer sonho jovem de um qualquer herói…

Os dedos deslizam incertos pela face imóvel borrando o branco em torno dos olhos firmemente fechados… o pincel de ponta preta contorna as arestas salientes da cara… a cada pormenor que se pinta o sonho vai-se tornando mais forte… mais intenso… mais vivo!…

As mãos frágeis do herói apanham o espelho manchado que se encontra ao lado… o olhar volta-se para baixo esperando talvez algo mais… esperando a visão de uma memória mais distante que a saudade se permite admitir… e naquele mesmo instante numa fracção quase imperceptível o cheiro a mofo da sala volta a invadir os sentidos e a música volta a desvanecer-se num ruído de estática… ali… naquele instante, entre os olhos e o espelho cai bruta e violenta a realidade… ali.. naquele instante... a solidão...
PP

5 comentários:

je suis...noir disse...

Talvez o melhor post até agora, para mim. Muito, muito forte!

alberto cabero fotografia disse...

es un lujo ver como una imagen describe tan bien a un texto,o al reves..
bjs ;D

S disse...

je suis...noir,
(pronto... corei!)


alberto,
beijinho grande e obrigada
:)

Rute disse...

Sem tempo para ler o texto, com muita pena minha...venho deixar-te um beijinho. Adorei a fotografia!

S disse...

obrigada Rute, boas férias
um beijinho