As fotografias são, quase de certeza, acidentes na biografia do fotógrafo — revelam muito mais sobre o fotógrafo do que sobre aquilo que fotografou. E não pintamos, nem escrevemos ou fotografamos para nos salvar, ou então é só por isso que o fazemos. De qualquer maneira, sabemos que se não o fizermos estamos mais rapidamente perdidos e é tudo…
… Mas, por outro lado, deparar com a precariedade da vida, e com a inquietante perenidade dos vestígios que nos sobreviverão, torna-se muito doloroso. É monstruoso pensar que algo saído de nós continua visível, presente, depois da morte — e quem se deterá a observar estes mapas da desolação? Quem descobrirá o que neles houve de certo ou de errado?
… Acho que seria sedutor se o fim do corpo se processasse doutro modo, não pelo apodrecimento, mas sim pelo regresso ao que ficou registado nos textos e nas fotografias e nas pinturas; conforme recuássemos, a escrita e as imagens desapareceriam…
… Atravessaríamos assim a nossa própria memória e apagar-nos-íamos no início dela. E passado algum tempo, ninguém saberia da nossa paragem por aqui — a não ser que, na nossa pressa de regressar, a meio caminho ficasse perdido um osso, ou os restos duma víscera, ou uma palavra, um nome ou um grito, para anunciarem a dor ao homem por vir…
Al Berto

13 comentários:

Mayte Piera disse...

Tremendos el texto y las fotos...
Un beso

Pedro Ponte disse...

Lá dizia o Lavoisier: nada se cria, nada se perde... tudo se transforma! :) o fim de umas coisas é o princípio de outras!

muito bom! :)

Anónimo disse...

o texto é, de facto, muito bom e as fotografias ilustram-no maravilhosamente. parabéns. MG

Baudolino disse...

Al Berto... fantástica evocação Sónia. Fotos belíssimas.
bj
P.

sónia silva disse...

Um beijo Mayte
:)


Sr. Ponte,
mesmo sabendo que não concordas obrigada.


Edgar,
estou desejosa de te meter as mãos... salvo seja!
;)


P.
O Al Berto é difícil de igualar. Pudesse eu um dia conseguir chegar aos seus calcanhares.
bjs

Laura Ferreira disse...

Bem verdade... que bem escrito, puxa.

sónia silva disse...

Laura,
o Al Berto deixa-nos sem pio.

pedro b disse...

the end is the beginning is the end



http://www.youtube.com/watch?v=ZApl8-I-itE

sónia silva disse...

hehehehe
a tua sorte é eu até gostar deste Batman.
(o comentário mais sério fica pela outra via, pode ser?)
;)

Johnny Guitar disse...

Tens fotos muito boas.
Mas quando passas as fotos em digital para preto e branco o resultado não é tão bom. Pensa nisso.

sónia silva disse...

Johny Guitar,
obrigada pela visita.

AN disse...

E a ser assim o que restava como memória de nós? Não será ela a única possibilidade de uma eternidade (im)possível?

Duas fotografias belíssimas e um texto lindíssimo que me fez lembrar estoutro que, em jeito de comentário, foi deixado no meu blogue e que não resisto a deixar de transcrever.
"Devia morrer-se de outra maneira. Transformarmo-nos em fumo, por exemplo. Ou em nuvens. Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio". E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir à despedida. Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus!" E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes...(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... ) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis... [José Gomes Ferreira]

sónia silva disse...

AN,
Já conhecia estas belas palavras do José Gomes Ferreira. Foram-me lidas há muitos anos atrás por alguém que entretanto se transformou em nuvem... ou seria perfeito que assim acontecesse.
Obrigada pelo comentário.

um beijinho