caminhas ao meu lado, como um irmão que nunca tive. ombreias-me a dor, enquanto a madrugada nos aponta o caminho oblíquo. seremos dois ou apenas um, não o sabemos ainda. os passos duplicados ecoam na calçada escura. horas e horas a caminhar, no meio do sono acordado à força, seguindo hermes ao fundo. a estrela que nos brilhava há pouco não se vê mais, descemos à terra, rasgando-lhe a primeira camada de húmus gelado com as nossas mãos. sente-se o cheiro nauseabundo do enxofre nos corpos em decomposição. sabemos que seguimos na direcção correcta. não há salvação possível à salvação. 
o altar colocado ao centro não arde. o silêncio. um de nós pode transpor aquela parede e regressar, o outro terá de ficar. perto dali, perséfone chora. o altar continua sem luz. a escolha. somos uno, afinal.

texto de Anonima dos Enes
(obrigada pela prontidão e simpatia)

Comentários

Anónimo disse…
foi um prazer, querida S.
obrigada.
je suis...noir disse…
as tuas fotos fazem-me sempre pensar (e eu já penso tanto)...

o texto combina muito bem, e em uno também estaria bonito!
S disse…
nAnonima,
obrigada eu, mais uma vez pelo belíssimo texto.


je suis...noir,
não faças como eu que penso demais...

Sim, combina na perfeição com o que eu queria, sem sequer ter dito nada à autora do texto, e sim, talvez em uno até ficasse melhor, mas que queres sentimentalismos meus de juntar as duas imagens...
pedro b disse…
gosto bem!
je suis...noir disse…
alguma razão deves ter tido para as juntar...

que isto de quem pensa muito...
Pedro Ponte disse…
Agora caía bem um jantar à beira rio com uma vista para Lisboa! hehehe

:) como sempre fenomenal! :)
S disse…
Lisboa? nããã...
estou tão bem aqui pelo norte!!

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