© Sónia Silva

_Hoje sou Tempestade.
“É irrelevante pensar em chegar quando se acaba de partir. A todos os passos se seguem outros passos. Mas nem sempre chegar é tudo o que importa. Importa o entretanto. Entre tanto.”

Mónia Camacho
Porque los pájaros nacidos en jaula creen que volar es una enfermedad, de más en más hay pájaros rogando porque los metan en una jaula.
Alejandro Jodorowsky


Por vezes, enquanto leio, tenho o hábito de sussurrar palavras. Palavras estrangeiras, que repito várias vezes até aprender o seu som e o seu significado. Palavras estrangeiras que talvez viagem pelo espaço e cheguem a ti. Palavras estrangeiras como ástin mín... ás-tin-mín...

As you start to walk on the way, the way appears.
Rumi
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.

Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.

E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.
Manuel António Pina
Onde te escondes, aurora clara?

Album of the last weeks.

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vivem nas varandas traseiras das vivendas geminadas e vestem robes escuros. vejo-as melhor quando subo a ladeira, atrás dos cães. são avós orgulhosas, enquanto chamam os petizes que brincam no pátio do rés-do-chão, mas continuam a ser mães com mão de ferro, falando ríspido com as mulheres que às vezes também vão à varanda e não dizem nada. olham fixamente quem passa, sem pudor, como se tudo lhes pertencesse ou devesse explicação. estranhamente, não se dão umas com as outras, talvez por questões de segurança, não vá o ego de alguma explodir, enquanto gaba a descendência. confesso que sempre que posso, levo os cães a defecar* junto à vedação, enquanto olho para elas também.
[daqui]
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Chegar à margem e ter medo da quietude da água.
Antonio Gamoneda
© Sónia Silva
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Ecos que partem do centro, semelhantes a cavalos.
Sylvia Plath


Quando se deu a grande fuga dos deuses, 
os homens, 
mais lentos e desconfiados, 
permaneceram nos montes
com os animais
selvagens. 
O medo, 
como o vento,
pulsava nervoso pelos corpos, 
fazendo bater os corações
como cavalos que galopavam o tempo. 
A praga chegou no final do inverno, 
disfarçada de perfumes e flores de todas as cores, 
enganando até os mais prudentes,
trazendo,
singela,
o horror eterno.
São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando
com esse coração
a própria estrada está comprometida.

luís miguel nava