“Há-de haver alguém que me perceba sem que eu tenha que me explicar.”
Paulo Kellerman
Olhou pela janela para fora de si, para o mundo que continuava a existir.
Elsa Margarida Rodrigues
Um gentil gigante
Um dia sim acordamos e nunca fomos necessários,
pura e simplesmente porque a necessidade não tem uso.
Supérfluos juramos deprimidos a próxima tristeza,
mas ela tarda em tardar por ser tanto conceito.
Não nos consagramos às formas dos astros e mundos,
somos sempre a curva física que a ciência espera
na lenta moderação ou consumação do universo.
Fechamos as portas, as janelas, fazemos cortinados
na negra escuridão a que nos destinamos de dia,
quando o sol nasce e nos esquecemos do incidente.
Pedro Braga Falcão

Tu, a que eu amo nesta manhã
que trouxe a tua imagem com os ruídos
da rua, vai até à janela,
levanta as persianas do quarto, e olha
o céu como se ele fosse
um espelho. Diz-me, então,
o que vês? As nuvens que passam
pelos teus olhos? Um azul cuja
sombra te desenha o contorno
das pálpebras? A mancha rosa do nascente
que o horizonte roubou ao
teu rosto? Mas não te demores. Um espelho
não se pode olhar muito tempo e
o céu da manhã é dos que mudam com
as variações da alma. Pode ser que o céu
roube um sorriso aos teus lábios e
mo traga, para que eu o ponha neste poema,
onde te vejo, um instante, enquanto
a manhã não acaba.

Nuno Júdice
Morre-se de tanta coisa
Quanto a mim morro-me de ausência
Victor Oliveira Mateus

I do not want anyone to get close to me, I do not want anyone to see me, and this is the way things have developed: no one gets close and no one sees me. This is what must have engraved itself in my face, this is what must have made it so stiff and mask-like and almost impossible to associate with myself whenever I happen to catch a glimpse of it in a shop window.
Karl Ove Knausgård
o fresco da noite exala um cheiro doce a palha cortada. avanço no restolho, finalmente liberta de mais um dia sem fim, cheio de mundo que recebo à superficie. um cão ladra ao longe, os pensamentos evolam-se, numa leveza de odor a ervas cortadas. no silêncio, onde apenas os meus passos estalam as novas camadas de chão, caminho sem rumo, seguindo um rasto invisível que não temo. a escuridão adensa-se. continuo. há quem tenha medo das cobras, como o homem da meia-noite, que bate a vara durante todo o caminho, eu prefiro afastar-me das multidões.
En la otra madrugada.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.
Eugénio de Andrade

Mas nada é interminável e o momento logo acabou, pois é essa a natureza da felicidade, acabar demasiado cedo; durar apenas o tempo necessário para que, depois, possa sempre permanecer a dúvida se não teria sido apenas uma ilusão, um delírio, um equívoco.

Serviços mínimos de felicidade, Paulo Kellerman
“Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;”
Manuel António Pina