A música, gasta e abafada, foge de uma caixa perdida a um canto da sala enchendo-a de nostalgia… Em cima da mesa o conjunto de pintura, escasso de preto e branco e intacto nos vivos, absorve a pouca cor da sala. Tempos houve em que aquele estojo dava a mão a sorrisos e gargalhadas… mas não agora! Ao lado, qual incenso a arder, a sala envolve-se no cheiro bafiento do livro de pintura aberto numa página aleatória, num qualquer sonho jovem de um qualquer herói…
Os dedos deslizam incertos pela face imóvel borrando o branco em torno dos olhos firmemente fechados… o pincel de ponta preta contorna as arestas salientes da cara… a cada pormenor que se pinta o sonho vai-se tornando mais forte… mais intenso… mais vivo!…
As mãos frágeis do herói apanham o espelho manchado que se encontra ao lado… o olhar volta-se para baixo esperando talvez algo mais… esperando a visão de uma memória mais distante que a saudade se permite admitir… e naquele mesmo instante numa fracção quase imperceptível o cheiro a mofo da sala volta a invadir os sentidos e a música volta a desvanecer-se num ruído de estática… ali… naquele instante, entre os olhos e o espelho cai bruta e violenta a realidade… ali.. naquele instante... a solidão...
PP



Comentários
bjs ;D
(pronto... corei!)
alberto,
beijinho grande e obrigada
:)
um beijinho