#2

Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade.

Raul Brandão

6 comentários:

Maria Eu disse...

cheirava mal, a morto, até me purificarem pelo fogo,
e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,
requiescat in pace,
e eu não descanso em paz nas retretes terrestres,
a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,
como quem diz:
aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo
e tudo,
que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,
o receba como ambrosia sutilíssima nas profundas dos esgotos,
merda perpétua,
e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:
vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,
passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro
até a noite desfazer o canto,
errático canto e errado no coração da garganta,
canto que o traspassava pela metade das músicas
— e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto as turvas águas últimas
se misturavam com as águas primeiras

Herberto Helder, in Servidões

Fotos sempre belíssimas!

Um beijo, S. :)

S disse...

Maria,
que toda a merda que nos corrói o corpo e a alma se possa descarregar assim!
As melhoras rápidas e um beijinho grande
:)

Anónimo disse...

acho que já te tinha lido esta frase algures. gosto bem!
beijos vários desde milão

S disse...

obrigada meu querido!
beijos vários
:)

ana p disse...

correm em mim os mortos
como água

herberto helder

Foi disto que me lembrei
Bj S

S disse...

Ana,
E tão bem que lembraste.

beijos