Partiste com a mentira na boca de que voltarias em breve e agora deambulas pela noite subterrânea, preso à promessa de seres alguém? Mata a esperança, vil mentira dos crentes, doentes, um tiro certeiro na ilusão temporal, lobo occipital. Acaba com essa mentira progressista, esse sorriso consolador, bolor, filosofia de cabeceira. A esperança é dos tolos, parolos, dos que insistem em ficar, alimento dos moribundos, tecto dos sem-abrigo, detrito, carícia, sorriso, abraço, mentira que te aperta a compasso, te esfaqueia a traqueia, mata-a tu. Puta de mil camas, vã, insana, cadela, não a queiras crer, não deixes que a raiz te consuma, apraxia, moléstia maldita, não te deixes tolher. Mata-a. Desengana-te a tempo. Teme. Inventaram o sonho para te magoar, criaram os laços para te ferir. Liberta-te. Faz da solidão o perdão na tua cama. Procura a tua vez. Cai, parte os espelhos, sucalca o corpo doente, fere, morre, mente, ergue-te, mas não lhe dês a mão.

texto da G, do mundo da G

7 comentários:

Susana Rodrigues disse...

Maravilhosamente descrito o desespero solitário que a Sónia apanhou.

Mas eu tenho de dizer duas coisas mais: uma, a Sónia estava lá. Ele não esteve completamente só, duas: há uma mão por trás que o tenta proteger. Parece-me.

Um beijo às duas. Isto, de facto, é arte.

G. disse...

Graças a Deus há pessoas de bom coração como a Susana :) que vêm para além da pancada, que fazem o mundo continuar a girar.
Da minha parte, um beijinho à doce Susana.
Para ti, linda Sónia, uma vénia.

G. disse...

*vêem (eu é que estou mesmo ceguinha :)

xilre disse...

Há uma simbiose tão perfeita entre a foto e o texto que não há causa nem efeito: nasceram em simultâneo, ou assim parece.

Miss Smile disse...

A foto não carece de palavras, na verdade. Vale por si. Mas ainda bem que as escreveu, G., esse grito profundo que transborda da alma. Um fôlego de beleza que abriu um parêntesis na normalidade deste meu início de manhã.

Bem hajam, Sónia e G.

S disse...

Susana, Miss Smile e xilre,
Obrigada pelas palavras
:)

Quanto a ti G, obrigada pela presença constante

Pedro Ponte disse...

ás vezes não é preciso dar a mão para ela nos tocar... as vezes ela vem sem a vermos a chegar... é o que trás com ela que me assusta ou encanta...