– Por vezes, penso em coisas improváveis. Por exemplo: na natureza do riso. Nunca pensas em assuntos destes?
– Não.
– Será que a natureza ri? As árvores e os cavalos, os pássaros, as papoilas, os ratos, os veados. Pergunto-me se existirá riso na natureza.
– Boa pergunta. Um bocado irrelevante mas pronto.
– Não é nada irrelevante. Como será o riso das plantas, dos animais? Como o reconhecer, como lhe corresponder? Se não riem, como sabemos se estão felizes?
– Não faço ideia.
– Bom, talvez racionalizar o riso seja um bocado absurdo.
– Talvez.
– Mas é preciso fazer um esforço para compreender. Sem compreensão, não há evolução, não há avanço. Não achas? Analisar para melhorar. No outro dia estava a pensar nisto: se juntasses todos os teus risos, quanto tempo terias rido até hoje? É uma questão gira, não é?
– Muito gira.
– Claro que haverá sempre quem diga que quantificar o riso será ainda mais absurdo do que racionalizá-lo.
– Pois, é possível que haja.
– Sabes outra coisa de que me lembrei? Será o riso um acto de egoísmo ou de partilha? Rimos por nós ou pelo outro? Admiro-me como não pensas em coisas destas, na verdade são reflexões que poderão dizer muito de nós. Introspecções, buscas interiores.
– Deixa-me dizer-te o que penso, então. Parece-me que o riso é uma distracção. Uma forma de alheamento, e das mais eficazes. Portanto, é um bocado parvo falar sobre isso. Ris para te distrair e ainda falas sobre rir para te distraíres um bocado mais? É absurdo. Olha, desculpa que te diga, mas que se foda o riso. Tu, que compreendes tudo, responde-me a isto: de que serve o riso quando se está a sofrer? Que pode o riso contra a solidão, contra a incompreensão e a angústia, contra a dor, contra a morte? Qual o poder do riso perante uma dor de dentes? Nenhum, não é? E ainda me vens falar de natureza? Imagina que está um veado a pensar lá na vida dele e, de repente, aparece um leão a correr, com a intenção óbvia de lhe enterrar as mandíbulas no pescoço. Que faz o veado? Achas que ri? Se calhar, não. O que te posso confessar é que me sinto como esse veado; com um leão a saltar-me ao pescoço. Sinto-me só, sinto-me desanimado, sinto-me triste. Já sei que há que sorrir e dançar e fingir que isto tudo é uma grande alegria, aproveitar os momentos, de cada vez que me falam em aproveitar o caralho dos momentos até fico com um nó no estômago. Tenho pena mas não sou capaz. Porque olho para trás e apenas vejo irrelevância, perda de tempo, fracasso, ilusão. Olho para diante e vejo o vazio; nem sequer sinto incerteza, apenas a certeza do vazio. E tu falas-me em rir. Toda a gente quer que ria. Mas de que serve o riso, afinal? Servirá para preencher o vazio? Sinto-me como um veado que está quase a ser despedaçado pelo leão e, portanto, não lhe apetece muito rir. E o problema é que nem posso fugir, como faria o veado perante a ameaça do leão, porque a verdade é que este leão está dentro de mim, sou o meu próprio leão. O leão é o vazio e o vazio sou eu. Claro que gosto de rir, claro que quero rir; se dependesse de mim, passaria o resto da vida a rir. Mas não te parece um pouco absurdo confundir riso com felicidade? Queres saber o que penso? Riso não é felicidade, é alívio. E é bom estar aliviado, sem dúvida nenhuma; é muito bom não ter dores de dentes. Mas será isso o máximo que ambicionamos para a nossa vida? Alívio?
A conversa termina abruptamente, o silêncio é apenas contrariado pelo sussurro das respirações. Um deles – ou ambos? – pensará que talvez os animais e as árvores e todos os restantes elementos da natureza sejam mais sensatos que os homens: não perdem tempo com conversas. Para quê dialogar, afinal? Para quê usar palavras, se o outro nunca as entende? Continuarão a respirar em silêncio durante algum tempo, a pensar nos seus leões íntimos. Ou a pensar em formas de não pensar. Até que algum deles talvez diga: o silêncio é que é um verdadeiro alívio. Ou algo semelhante. E então, talvez riam. 

Estória do meu amigo Paulo (aqui)

2 comentários:

je suis...noir disse...

bonito :)

beijinhos*

S disse...

:)
beijinho M.